Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1930)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)

 

 

SOCIEDADE VELOSIANA DE CIÊNCIAS NATURAIS

Denominações: Sociedade Velosiana de Ciências Naturais (1850)

 

 

HISTÓRICO
ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO
PUBLICAÇÕES OFICIAIS
FONTES
FICHA TÉCNICA

 

 

 

 

 

 

HISTÓRICO

A Sociedade Velosiana de Ciências Naturais reuniu-se pela primeira vez, em sessão preparatória, no dia 27 de julho de 1850, no Museu Imperial e Nacional. Sua sessão de abertura ocorreu no dia 18 de outubro do mesmo ano. Segundo Francisco Freire Allemão de Cysneiros, seu fundador e presidente, a idéia de se formar uma associação que reunisse naturalistas na capital do Império já vinha sendo ventilada desde 1845 (LOPES, 1997). De acordo com seus estatutos publicados na Gazeta dos Hospitaes do Rio de Janeiro (1850), a Sociedade tinha por fim "indagar, coligir e estudar todos os objetos pertencentes à história natural do Brasil; e juntamente averiguar e interpretar as palavras indígenas, com que forem designados" (artigo 1º).

A razão dessa denominação foi homenagear o naturalista Frei José Mariano da Conceição Vellozo (1741-1811), autor da obra "Flora Fluminensis", resultado de investigações científicas realizadas pela província do Rio de Janeiro durante oito anos, a pedido do Vice-Rei Luiz de Vasconcellos e Souza. Frei Vellozo terminou o extenso levantamento da flora da região em 1790, e apenas em 1825 deu-se início à publicação do seu trabalho. A partir do século XIX, quando as ciências naturais no Brasil começaram a conquistar o seu espaço através da criação dos museus, Vellozo passou a ser considerado um dos principais cientistas brasileiros do século XVIII. Mesmo assim, a denominação da Sociedade seria questionada na época por alguns membros da elite imperial que não consideravam o Frei José Mariano da Conceição Vellozo digno desse prestígio (LOPES, 1997).

O Museu Imperial e Nacional, através de seus membros teve atuação fundamental na criação da Sociedade Velosiana como forma de promover o intercâmbio entre as províncias distantes e a capital do Império, no que se refere à produção das ciências naturais na época. Nesse sentido, ficou resolvido que as sessões da Sociedade seriam ministradas em uma sala no Museu, mediante autorização do Governo Imperial. Em sessão de 12 de outubro de 1850, foram lidos a licença concedida pelo Imperador Pedro II e o estatuto da Sociedade.

Já em 1852, a Sociedade Velosiana começou a sofrer um esvaziamento. Embora seu primeiro estatuto estabelecesse sessões ordinárias quinzenais, neste ano ocorreram apenas seis sessões (ALEMÃO apud LOPES, 1997). Além disso, as dificuldades financeiras e as divergências entre os seus membros em relação aos objetivos da associação, se agravaram. Em um parecer datado de 3 de junho de 1853, a comissão de estatutos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro aprovou a proposta de Guilherme Schüch de Capanema (Barão de Capanema) de junção da Sociedade àquele Instituto, como uma de suas seções. Outro parecer, de 23 de setembro de 1853, encaminhado pela mesma comissão, aprovou a proposta que havia sido feita pelo presidente da Sociedade ao Instituto em 1º de julho do mesmo ano, na qual este solicitava que o Instituto lhe desse lugar para suas sessões e para a guarda de seus objetos. Porém, essa união não se concretizou. A partir da disputa polarizada entre e Francisco Freire Allemão de Cysneiros, houve um rompimento entre os sócios, sendo criada a Sociedade Palestra Científica do Rio de Janeiro. Em 25 de junho de 1856, foi realizada na Escola Militar, no Largo São Francisco, a primeira sessão dessa nova Sociedade, tendo comparecido os conselheiros Guilherme Schüch de Capanema, Cândido Batista Oliveira (diretor do Jardim Botânico), Francisco Freire Allemão de Cysneiros, Antônio Manuel Ferreira Lago, Antônio Manoel de Mello, Frederico Leopoldo Cezar Burlamaque e Manuel de Araújo Porto Alegre (MARQUES, 1999), grande parte deles membros da Sociedade Velosiana. Segundo os estatutos aprovados pelo decreto nº 1.820, de 13/09/1856, a Sociedade Palestra Científica tinha por fim "ocupar-se do estudo das ciências físicas e matemáticas, principalmente com aplicação ao Brasil" (Apud NEIVA, 1989, p. 15).

Na época da Guerra do Paraguai (1864-1870) houve tentativas de reerguer a Sociedade Velosiana, quando chegaram a ser realizadas algumas sessões (NEIVA, 1989). Neste período, em 24 de setembro de 1870 foi redigido novo estatuto. Em 1872, houve mais uma tentativa de retomada da Sociedade Velosiana, da qual teria participado Ladislau de Souza Mello Netto, diretor interino do Museu Imperial e Nacional. Foram realizadas, ao todo, entre 20 e 25 reuniões durante o período de seu funcionamento, não se sabendo ao certo a data de seu término. Neste ano, Benjamin Franklin Ramiz Galvão, professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, era 2º secretário e André Pinto Rebouças era tesoureiro da Sociedade.

Ainda em 1873 a Sociedade Velosiana, através de uma de suas comissões, revisou e publicou o "Diccionário de Botânica Brasileira", baseado nos manuscritos deixados pelo médico e botânico Manuel Arruda da Câmara e preparados pelo farmacêutico pernambucano Joaquim de Almeida Pinto (SANTOS FILHO, 1991). A comissão era constituída por Ladislau de Souza Mello Netto, João Joaquim Pizarro, Agostinho José de Souza Lima, Joaquim Monteiro Caminhoá e Benjamin Franklin Ramiz Galvão.

Segundo Maria Margaret Lopes (1997), os objetivos da Sociedade Velosiana, representativa das ciências naturais, acabaram sendo absorvidos pela atuação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que tinha como projeto a investigação de todos os aspectos da história do Brasil, incluindo sua história natural, responsabilizando-se assim pela elaboração da história oficial do país. Em 1874 o Instituto Farmacêutico do Rio de Janeiro, criado em 1858, formou várias comissões, entre as quais a de Botânica e Zoologia presidida pelo conselheiro Francisco Freire Allemão de Cysneiros.

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ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO

De acordo com os seus estatutos originais, o número inicial de sócios efetivos era limitado a quinze. Estes só poderiam ser pessoas que se ocupassem do estudo da história natural e que tivessem trabalhos publicados em qualquer um de seus ramos: zoologia, botânica e mineralogia. Além de sócios efetivos, a entidade possuía adjuntos efetivos em número de três, além de correspondentes, adjuntos correspondentes e sócios honorários em número indeterminado.

A Sociedade era regida por uma Mesa, constituída de um presidente, um secretário (mandato vitalício) e um tesoureiro-arquivista. Seus sócios efetivos foram distribuídos em quatro seções, consideradas como comissões permanentes: zoologia, botânica, mineralogia e língua indígena (artigo 25). Logo, suas comissões permanentes ficaram assim constituídas (Apud LOPES, 1997):

Mineralogia: Frederico Leopoldo Cezar Burlamaque, Cândido de Azeredo Coutinho, Custódio Alves Serrão e Alexandre Antônio Vandelli;

Botânica: Francisco Freire Allemão de Cysneiros, Luís Riedel, Bernardo José de Serpa Brandão e Guilherme Schüch de Capanema (Barão de Capanema);

Zoologia: Emílio Joaquim da Silva Maia e Theodoro Descourtilz;

Língua Indígena: Antônio Manoel de Mello e Ignácio José Malta.

Teve também como sócios correspondentes Antônio Corrêa de Lacerda, no Maranhão; Manuel Lourenço de Sousa, no Pará; João José S. Maia, no Ceará; e Augusto A. Moraes Sacramento, na Bahia, entre outros.

Nas sessões da Sociedade, em geral públicas, exceto quando se tratava de assuntos econômicos, foram discutidos diversos assuntos, entre os quais o pagamento dos sócios, a eleição dos sócios honorários, a convocação das reuniões, a aprovação dos estatutos (sessão de 23/05/1851), a sugestão de Francisco Freire Allemão de Cysneiros para o emblema da Sociedade, representado por duas folhas do pau-brasil, e a proposta de Guilherme Schüch de Capanema sobre a adoção de uma "nomenclatura invariável" para a classificação dos produtos naturais. Além disso, eram apresentados trabalhos científicos elaborados pelos sócios da instituição, em grande número sobre o Museu Nacional e seu acervo, e liam-se também as cartas recebidas das diversas províncias do país em resposta aos convites feitos pela Sociedade para convocar novos sócios ou membros correspondentes.

No ano de 1851, as comissões de trabalho da Sociedade foram alteradas por proposta de Francisco Freire Allemão de Cysneiros, no sentido de inventariar o que já se havia feito no Brasil em termos de História Natural, formando-se quatro novas seções:

Primeira Seção – integrada por Francisco Freire Allemão de Cysneiros, Alexandre Antônio Vandelli, Frederico Leopoldo Cezar Burlamaque e Theodoro Descourtilz, com o objetivo de preparar um catálogo cronológico de todos os autores nacionais e estrangeiros que, direta ou indiretamente, escreveram sobre a História Natural do Brasil, avaliando criticamente as suas obras;

Segunda Seção – formada por Emílio Joaquim da Silva Maia , Guilherme Schüch de Capanema e Ignácio José Malta, para escrever a história das tentativas feitas no Brasil para a criação de estabelecimentos científicos de História Natural;

Terceira Seção – formada por Cândido de Azeredo Coutinho, Antônio Manoel de Mello e Custódio Alves Serrão, para redigir a biografia dos naturalistas brasileiros;

Quarta Seção – integrada por Luís Riedel, Bernardo José de Serpa Brandão e Emílio Joaquim da Silva Maia, para averiguar quais foram as plantas e animais introduzidos no Brasil depois do seu descobrimento (LOPES, 1997, p.131-132).

Já em 1852, Emílio Joaquim da Silva Maia ao ler em uma das sessões da Sociedade o "Esboço Histórico do Museu Nacional", de sua autoria, colocava em prática os objetivos definidos para aquela segunda seção. Estes sócios da Sociedade Velosiana se propunham, assim, à tarefa de sistematizar a história da natureza do país e de suas próprias contribuições científicas a essa história.

De acordo como os novos estatutos datados de 24 de janeiro de 1870, as seções em número de 4 sofreriam uma nova arrumação, sendo assim denominadas: zoologia; botânica; geologia e ciências físicas; e etnografia e arqueologia. Cada uma delas elegeria um diretor e um secretário. Em contrapartida, a administração geral da Sociedade ficaria sob a responsabilidade de uma mesa formada por um presidente, dois secretários e um tesoureiro-arquivista, cujo 1º secretário seria perpétuo ao passo que os demais funcionários anuais. A periodicidade das sessões manteve-se quinzenal, ficando prevista ainda a publicação de uma revista para a publicação dos trabalhos e memórias de seus sócios.

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PUBLICAÇÕES OFICIAIS

Embora a Sociedade não tenha mantido um periódico próprio, os artigos científicos de seus sócios foram publicados no Guanabara, revista mensal artística, científica e literária dirigida por Joaquim Manuel de Macedo, Antônio Gonçalves Dias, Manuel de Araújo Porto Alegre, que circulou de 1851 a 1855.

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FONTES

- BIBLIOTECA GUANABARENSE. Trabalhos da Sociedade Vellosiana. Rio de Janeiro. (MN)
- DOCUMENTOS referentes à junção da Sociedade Velosiana que se ocupa de História Natural do Brasil e Línguas Indígenas, com o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro: Proposta, Pareceres. Lata 341, Pasta 4. (IHGB)
- ESTATUTO da Sociedade Velosiana do Rio de Janeiro, de 24 de setembro de 1870. Doc. 48, Arquivo do Museu Nacional, 1870. (MN)
- FIGUEIRÔA, Silvia Fernanda de Mendonça. Ciência na Busca do Eldorado: A Instituição das Ciências Geológicas no Brasil, 1808-1907. São Paulo: USP ( Tese de Doutorado ), 1992. (BCOC)
- LOPES, Maria Margareth. O Brasil descobre a pesquisa científica: os museus e as ciências naturais no século XIX. São Paulo: Hucitec, 1997. (BCOC)
- MARQUES, Vera Regina Beltrão. Natureza em Boiões: medicina e boticários no Brasil setecentista. Campinas, SP: Editora da Unicamp/ Centro de Memória –Unicamp, 1999. (BCOC)
- NEIVA, Arthur. Esboço histórico sobre botânica e zoologia no Brasil. Brasília: UnB, 1989. (BN)
- OLIVEIRA, José Carlos de. Ciências no Brasil Monárquico: 1820-1870. Rio de Janeiro: MCT, CNPq, MAST, 1987. (AN)
- PINTO, Joaquim de Almeida. Diccionário de Botanica Brasileira ou Compêndio dos vegetaes do Brazil, tanto indígenas, como aclimados, revisto por uma comissão da Sociedade Vellosiana e aprovado pela Faculdade de Medicina da Corte, contendo uma descrição científica de cada família a quem pertencem, e outra vulgar ao alcance de qualquer inteleigência, seu emprego, as propriedades médicas e venenosas, sua utilidade nas artes, indústria, economia doméstica e na veterinária; coordenado e redigido em grande parte sobre os manuscritos do Dr. Arruda Câmara por Joaquim de Almeida Pinto. Rio de Janeiro: Typographia Perseverança, 1873. (RGPL)
- SESSÃO do dia 23 de setembro de 1853. Revista do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, tomo III, 4a da terceira série, n.13, p.100, 1o trimestre de 1854. (IHGB)
- SOCIEDADE VELLOSIANA. Estatuto da Sociedade Vellosiana - 1º de novembro de 1850. Gazeta dos Hospitaes do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1850. (BN)
- __________________________. Relatório dos trabalhos da Sociedade Vellosiana no ano de 1850, apresentado pelo secretário da mesma, na sessão de 31 de março de 1851. O Guanabara: revista mensal artística, científica e literária. Rio de Janeiro, 1851. (BN)

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FICHA TÉCNICA

Pesquisa - Alex Varela; Gil Baião Neto
Redação - Alex Varela; Gil Baião Neto; Verônica Pimenta Velloso
Revisão - Francisco José Chagas Madureira.

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