Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1930)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)

 

 

SOCIEDADE DE MEDICINA E CIRURGIA DO RIO DE JANEIRO

Denominações: Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro (1886)

 

 

HISTÓRICO
ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO
PUBLICAÇÕES OFICIAIS
FONTES
FICHA TÉCNICA

 

 

 

 

 

 

HISTÓRICO

Dentre as agremiações médicas do século XIX, destacaram-se, no Rio de Janeiro, a Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, criada em 1829, e a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, fundada em 1886. A primeira sofreu alterações sucessivas dando origem à Academia Imperial de Medicina, em 1835, e à Academia Nacional de Medicina, em 1889, existente até hoje. Já a segunda apresenta atualmente a mesma denominação, apesar das mudanças em seus estatutos.

Embora essas instituições tenham expressado o mesmo objetivo principal – organizar a categoria médica em torno das discussões específicas da saúde e em relação a seu papel político -, a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro mostrou uma particularidade em sua organização. Diferentemente da primeira Sociedade, que exigia de seus membros uma referência institucional importante e uma atuação pública reconhecida como condições para ingressar no quadro de associados, a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro buscou ampliar a participação dos médicos na entidade, expandindo a idéia de associação para além do universo acadêmico, ou ainda, estimulando uma interação mais efetiva da academia médica com as questões sociais da saúde naquele momento. A instituição, inaugurada em 14 de fevereiro de 1886, no prédio nº 77 da rua do Ouvidor, pretendia ter o maior número possível de médicos associados. Inicialmente instalada no Liceu de Artes e Ofícios, foi criada pelos médicos Lucas Antônio de Oliveira Catta Preta, Hilário Soares de Gouvêa, Henrique Alexandre Monat e Marcos Bezerra Cavalcanti, com o intuito de democratizar a comunidade médica. Com essa nova ênfase, a entidade foi considerada uma Sociedade da República, abolindo os critérios elitistas de integração dos médicos. Esse estímulo crescente às agremiações relacionava-se também ao momento político republicano e abolicionista que vivia o Brasil.

Pouco antes de sua criação, através do edital de convocação dos médicos, publicado nos jornais da Corte em 9 de fevereiro de 1886, pode-se identificar a preocupação principal da Sociedade que perpassou todos os anos de sua existência, no qual é afirmada a sua intenção de se "ocupar da divulgação científica e também da defesa profissional da classe" (QUEIROZ, 1986, p.17). Mais detalhadamente, segundo seus estatutos, estava em pauta:

"estudar e discutir, em sessões hebdomadárias, assuntos de medicina e cirurgia e suas ciências auxiliares, de preferência casos clínicos, com ou sem apresentação dos respectivos doentes; defender os interesses da classe médica e promover a união de seus membros; dar parecer sobre questões profissionais e de interesse moral da classe, quando consultada; manter correspondência com as associações congêneres, nacionais e estrangeiras" (Apud QUEIROZ, 1986, p.17)

 

 



A associação foi criada num momento em que algumas das reivindicações dos profissionais médicos, que vinham sendo feitas desde os anos de 1860, foram encaminhadas a partir das reformas do ensino médico, propostas entre 1879 (decreto nº 7.247 de 19 de abril) e 1884 (decreto nº 9.311 de 25 de outubro), quando foram dados os primeiros passos na direção da institucionalização de uma medicina experimental, considerada a medicina científica. Nesse sentido, a Sociedade, constituída em grande parte por professores da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, ao promover a divulgação e o debate científico através da realização de congressos, viria colaborar com o processo de institucionalização da medicina local.

Os médicos que participaram da elaboração das primeiras reformas dos estatutos da Sociedade, em 1887 - Oscar Adolpho de Bulhões Ribeiro, Antônio Augusto de Azevedo Sodré, Hilário Soares de Gouvêa, Henrique Guedes de Mello, Júlio Rodrigues de Moura e João Carlos Teixeira Brandão -, aprovaram a realização de congressos de medicina e cirurgia a nível nacional, prevendo para o ano seguinte o primeiro deles. Os responsáveis pelo projeto do regulamento que viabilizou a execução do 1º Congresso foram Oscar Adolpho de Bulhões Ribeiro e Antônio Augusto de Azevedo Sodré. A Sociedade, então, realizou o primeiro Congresso de uma série que deveria ter periodicidade anual. Mas o terceiro deles, instalado na Bahia, em 1890, sob a presidência de José Francisco de Silva Lima, foi o último a ocorrer em anos subseqüentes. O quarto Congresso, que deveria ser realizado em São Paulo no ano de 1897, foi transferido para o Rio de Janeiro, em 1900, devido à comemoração do quarto centenário do descobrimento do Brasil (LIMA, 1900).

No ano de 1889, quando da instauração da República, a Sociedade já era reconhecida e apresentava como grande preocupação o tratamento da febre amarela, que dizimava a população do Rio de Janeiro. A busca de soluções para a epidemia mobilizou os médicos em torno da Sociedade, que se destacou como um espaço para o debate da questão. Naquele mesmo ano, às vésperas da implantação do regime republicano, foi realizado o 2º Congresso organizado pela agremiação.

A partir de 1912, tem-se notícia das comissões de medicina, constituídas inicialmente pelos médicos Oswaldo de Oliveira, Fernando Terra e Paulo Figueiredo Parreiras Horta, e de cirurgia, formada por Daniel de Almeida, Ernesto Crissiuma Filho e Leão de Aquino (DIRETORIA...,1911, p.600). De 1913 em diante, além dessas comissões, há referências em periódico sobre as comissões de farmácia e de polícia, sendo que a primeira, inicialmente, ficou constituída pelos farmacêuticos Isaac Werneck da Silva Santos, José de Carvalho Del Vecchio e Alvino de Aguiar, enquanto a segunda por Manoel Cardoso Fontes, Daniel de Almeida e Azevedo Júnior (DIRETORIA..., 1913, p. 1.056).

Em 1918, a Sociedade de Medicina e Cirurgia passou a ter sede própria, situada na Avenida Mem de Sá, em terreno doado pelo Governo Federal.

Diretoria:

Presidentes- Lucas Antônio de Oliveira Catta Preta (1886, 1887, 1892 e 1895); Hilário Soares de Gouvêa (1888, 1889 e 1893); Marcos Bezerra Cavalcanti (1894); José Benício de Abreu (1890 e 1898); Henrique Guedes de Mello (1896, 1897, 1905 e 1906); José Pereira Guimarães (1899); Francisco Campello (1900); Francisco Simões Correia (1901); Daniel de Almeida (1902); Manoel Cardoso Fontes (1903, 1915 e 1916); Antônio Dias de Barros (1907); Aureliano Werneck Machado (1908, 1909 e 1914); Azevedo Júnior (1910); Luiz do Nascimento Gurgel (1911); Alberto Ribeiro de Oliveira Motta (1912 e 1913); Oswaldo de Oliveira (1917 e 1918); Fernando Augusto Ribeiro de Magalhães (1919 e 1920); Plínio Marques (1921); Miguel Ozorio de Almeida (1924 e 1925); Antônio Cardoso Fontes (1928 e 1929); Antônio Austregesilo Rodrigues Lima (1930 e 1931).

Vice-presidentes – Visconde de Alvarenga (Albino Rodrigues de Alvarenga) (1892 e 1893); Júlio Monteiro (1912, 1913, 1916, 1919 e 1920); Júlio Eduardo da Silva Araújo (1921); Miguel Ozorio de Almeida (1923); Leonel Gonzaga (1924); João Marinho de Azevedo (1926 e 1927); Jorge Sant´ Anna (1928); Arnaldo de Moraes (1929); Leonel Gonzaga (1930).

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ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO

Desde o início, a participação de estrangeiros na Sociedade era estimulada e o número de seus associados era ilimitado, sendo organizados por categorias de fundadores, efetivos, correspondentes, honorários ou beneméritos.

As primeiras reformas nos estatutos ocorreram um ano após sua criação, em 1887. Estiveram envolvidos nesta iniciativa os médicos Hilário Soares de Gouvêa, Júlio Rodrigues de Moura, João Carlos Teixeira Brandão, Henrique Guedes de Mello, Antônio Augusto de Azevedo Sodré e Oscar Adolpho de Bulhões Ribeiro. Os dois últimos apresentaram relatório sobre a realização do primeiro Congresso, em 1888, que teve seu conteúdo publicado em 1889 nos Anais do Congresso, sendo que os custos com sua impressão foram arcados pelo Imperador Pedro II (RIBEIRO, 1984).

Em termos de atuação da Sociedade, além da realização de estudos distribuídos pelas comissões de medicina, cirurgia, farmácia e polícia, ela acabou por priorizar a organização de congressos. O primeiro Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia, realizado em 1888, ratificava a importância da união da classe médica, criando condições para se avançar no debate entre nacionais e estrangeiros, visando "promover o progresso e o adiantamento das ciências médico-cirúrgicas" (Apud QUEIROZ, 1986, p.20). Sua abertura se deu no dia 11 de setembro, no Salão do Museu Escolar no Edifício da Imprensa Nacional, contando com a presença do Conde d´Eu (Luís Filipe Maria Fernando Gastão d´Orleans).

Esse Congresso representou a primeira realização de um debate mais amplo sobre as questões da saúde no Brasil e, portanto, legitimou uma instituição médica e científica independente do Estado. Segundo Ferreira (1997, p.488), a iniciativa marcava a "capacidade da medicina de se posicionar na vida pública por intermédio de atividades de valor acadêmico". A relação dos temas discutidos e apresentados no evento, entre os dias 11 e 18 de setembro, demonstravam uma preocupação com a busca de medidas terapêuticas e profiláticas para as doenças que grassavam na época, destacando-se os seguintes títulos: "maturação artificial das cataratas" (Hilário Soares de Gouvêa), "tratamento profilático de oftalmia dos recém-nascidos" (João José de Sant´Ana), "freqüência dos cálculos vesicais no Brasil, resultados operatórios" (Henrique Alexandre Monat e Oscar Adolpho de Bulhões Ribeiro), "ação terapêutica da lobelina" (Silva Nunes), "ação fisiológica da lobelina" (Antônio Augusto de Azevedo Sodré), "epidemia de dengue em Valença (Alfredo Carneiro Ribeiro da Luz), "o iodo na malária" (Alfredo Piragibe), "vacina profilática da febre amarela" (Domingos José Freire Júnior), "febre amarela e seu tratamento" (Álvaro Alberto), "freqüência da paralisia geral dos alienados no Brasil" (João Carlos Teixeira Brandão e Carlos Fernandes Eiras), "a quilúria, a hidrocele e a elefância no Brasil" (Antônio Felício dos Santos), "memória sobre hospitais marítimos para crianças escrofulosas e raquíticas" (Carlos Antônio de Paula Costa), "qual o melhor tratamento das bronquites agudas das crianças" (Tibério Lopes de Almeida) (Apud QUEIROZ, 1986, p.20, RIBEIRO, 1984, p.308-311).

A mesa diretora do Congresso ficou constituída por Lucas Antônio de Oliveira Catta Preta (Presidente); Hilário Soares de Gouvêa (1.º Vice-Presidente); Hugo Eiras Furquim Werneck (2.º Vice-Presidente); Oscar Adolpho de Bulhões Ribeiro (3.º Vice-Presidente); Antônio Augusto de Azevedo Sodré (Secretário Geral); Malaquias Antônio Gonçalves, José Eduardo Teixeira de Souza e Henrique Guedes de Mello (secretários adjuntos).

Entre os dias 16 e 26 de setembro de 1889, foi realizado o 2º Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia, também instalado no Salão do Museu Escolar do Edifício da Imprensa Nacional. O evento foi dividido pelas seguintes seções: medicina interna; cirurgia geral; oftalmologia, dermatologia, laringologia e otologia; obstetrícia, ginecologia e pediatria; e história natural e farmácia. Na abertura do referido Congresso, presidido por Hilário Soares de Gouvêa, este proferiu discurso fazendo críticas ao Estado Imperial na condução da política sanitária e na política de formação de profissionais de medicina, considerando que pouco havia sido feito em relação à higiene pública. Estando presentes à cerimônia o Imperador Pedro II e membros do Ministério e do Corpo Diplomático, ao final do discurso Hilário Gouvêa considerou o Imperador "amigo constante da ciência" (Apud RIBEIRO, 1984, p.312), suplicando-lhe sua interferência na luta pela autonomia da ciência em relação à política partidária.

Os trabalhos apresentados e o debate foram norteados pelo tema central: "Quais os meios mais vantajosos para prevenir o aparecimento ou atenuar a intensidade das epidemias, que durante a estação calmosa se desenvolveram no Rio de Janeiro e em outros pontos do Brasil?", de autoria de Benjamin Antônio da Rocha Faria, diretor do Instituto de Higiene da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (RIBEIRO, 1984, p.311). Esse trabalho, apresentado por Rocha Faria, definia como objetivo final da higiene:

"impedir o aparecimento das moléstias ou atenuar-lhes as manifestações; e neste cometimento generoso, que a glorifica, agride ou defende, luta ou corrige; na realização, portanto, dos preceitos profiláticos não há como fugir desse duplo objetivo, a que convergem todos os recursos empregados. É sob essa indicação que urge encarar o problema complexo do saneamento da nossa Capital, inadiável como dever de humanidade, como garantia da prosperidade nacional e como critério da nossa civilização" (RIBEIRO, 1984, p.313)

 

 




Sobre este tema foi apresentado ainda o projeto de organização sanitária de autoria de Aureliano Gonçalves de Souza Portugal. Após a exposição dos trabalhos, foi designada uma comissão para elaborar um plano a ser apresentado na última sessão do Congresso. Essa ficou constituída por Benjamin Antônio da Rocha Faria, Aureliano Portugal, Antônio Augusto de Azevedo Sodré, Domingos de Almeida Martins Costa, José Benício de Abreu, Nuno Ferreira de Andrade, Manuel Victorino Pereira, Domingos José Freire Júnior e João Baptista de Lacerda. Ao final, a comissão apresentou um parecer que não chegou a ser divulgado, pois o Congresso terminou no dia 26 de setembro de 1889, às vésperas da mudança do regime imperial para o republicano. No entanto, nos anos seguintes, os trabalhos daquele Congresso foram publicados em três fascículos: 1º) Medidas de saneamento para o Rio de Janeiro e outras cidades do Brasil (1890); 2º) Seção Cirúrgica (1891); 3º) Seção de Medicina, história natural e farmácia (1892).

Entre 15 e 25 de outubro de 1890, em Salvador, foi realizado o 3º Congresso de Medicina e Cirurgia, também organizado pela Sociedade, sob a presidência de José Francisco da Silva Lima, e tendo como orador oficial Antônio Pacífico Pereira, integrantes do grupo que ficou conhecido pelo nome de Escola Tropicalista Baiana. Silva Lima destacou-se por seus estudos sobre as doenças tropicais beribéri e ainhum. Pacífico Pereira também foi professor da Faculdade de Medicina da Bahia. Entre os temas tratados, encontramos: "de algumas dificuldades no diagnóstico do beribéri e das nefrites; contribuição ao estudo da hipocondria; contribuição para o estudo da astasia e abasia no Estado da Bahia; analogias e diferenças entre o beribéri e as diversas polinefrites periféricas, especialmente as tóxicas infectuosas; a abasia coreiforme epidêmica no norte do Brasil; tuberculose óssea; da intervenção cirúrgica nas afecções do rim e suas vizinhanças; freqüência relativa das endometrites, suas causas, tratamento curativo e profilático; emprego do gerânio na coqueluche; os índios camacãs; a lepra na Bahia, a propósito da distribuição geográfica da moléstia no norte do Brasil; qual o melhor sistema de esgotos aplicável à topografia desta cidade, em harmonia com as condições e recursos acessórios que ela pode oferecer para sua realização; patologia histórica geográfica e nosologia das boubas, do máculo e dracontíase no Brasil, causas da sua atual raridade ou extinção; epidemia da influenza na Bahia em 1890" (LIMA, 1900, p. 89-90).

O Congresso seguinte organizado pela Sociedade, em 1900, acabou mais uma vez acontecendo na então capital da República, depois da possibilidade de ficar sediado na cidade de São Paulo. Em 1907, entre os dias 5 e 15 de setembro, o 6° Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia foi realizado em São Paulo, presidido por Alfredo de Britto e secretariado por Victor Godinho. Entre os sócios do evento havia médicos, farmacêuticos e cirurgiões-dentistas, além das associações Academia Nacional de Medicina, Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, Sociedade de Medicina e Cirurgia de Juiz de Fora, Sociedade de Medicina e Cirurgia de Pernambuco, Sociedade Brasileira de Profilaxia Moral e Sanitária do Rio de Janeiro e Sociedade Odontológica Paulista.

Por ocasião da comemoração do centenário da Independência do Brasil, em 1922, a Sociedade organizou na cidade do Rio de Janeiro o 1° Congresso Nacional dos Práticos, tendo como componentes da comissão organizadora o presidente da entidade Fernando Augusto Ribeiro de Magalhães e os secretários Arnaldo de Moraes e Theóphilo de Almeida. Em contrapartida, o que foi considerado na época o 1° Congresso Brasileiro de Farmácia, teve na sua comissão organizadora vários membros da Sociedade que participavam da comissão de farmácia, como Júlio Eduardo da Silva Araújo (Presidente) e Isaac Werneck da Silva Santos (vice-presidente), além de outros que se integrariam mais tarde à agremiação, como Paulo Seabra que participou dos estudos da denominada comissão de polícia.

Dentre a atuação da associação, destacou-se ainda sua participação na campanha contra a febre amarela (1903-1907), coordenada por Oswaldo Gonçalves Cruz, então Diretor do Instituto Oswaldo Cruz, e no combate à gripe espanhola (1918), realizando atividades voltadas para saneamento, pesquisa e tratamento (QUEIROZ, 1986). Em 1909, Carlos Ribeiro Justiniano Chagas, responsável pela descoberta do trypanosoma cruzi, parasita transmitido pelo barbeiro e causador da doença que ficou conhecida pelo nome de seu descobridor, também ingressou na Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro.

Durante o ano de 1924, a agremiação promoveu debates em suas sessões que tiveram como tema a aplicação de aparelhos elétricos de uso terapêutico para diversas doenças, alertando para o perigo do uso indiscriminado de aparelhos como os de raios ultravioleta e os de raios X.

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PUBLICAÇÕES OFICIAIS

Inicialmente, as discussões surgidas nas sessões da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro foram publicadas em periódicos da área médica, como Brazil Médico, revista semanal de Medicina e Cirurgia e, mais tarde, organizadas pela própria associação na forma de atas, boletins e revistas.

As primeiras publicações tinham como objetivo divulgar o conteúdo das sessões realizadas mensalmente entre seus sócios. Os Boletins da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro foram editados anualmente entre 1889 e 1896, contendo as mesmas informações das atas daquelas reuniões, expressando o prestígio da Sociedade na vida pública.

Os Boletins apresentavam os programas de higiene e saúde pública, a divulgação realizada na imprensa médica estrangeira e, em geral, temas relacionados às epidemias da época. Em 1890, sob a direção de Manoel Cardoso Fontes, os Boletins passaram a denominar-se Boletins e Memórias da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, mantendo o formato inicial e incluindo as memórias de membros da Sociedade.

A segunda publicação, Revista da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, foi editada a partir de 1896, tendo-se notícia de que ela circulou até o seu 14º ano (1910). O conteúdo da Revista reproduzia também as atas das sessões e acrescentava os trabalhos científicos de seus membros. Os redatores-chefes apresentavam as condições de elaboração do volume, suas características e objetivos. Em 1907, Jaime Silvado, então diretor da Revista, afirmou:

"...tendo caído ultimamente em apatia a Sociedade, fatalmente a Revista devia ter sofrido, e sofreu, o contra-choque. Atrasada, quase suspensa, essa publicação, dela apenas possuo atas, desde novembro de 1905 e nada mais. E notem os meus colegas – essas mesmas atas imperfeitas e incompletas. (...)A revista será bi-mensal e publicará as seguintes seções: artigos originais; comunicações escritas, lidas em sessão; atas da sociedade de medicina e cirurgia; revista de revistas; crônica e noticiário; bibliografia"( p.1)

 

 




Em 1909, o redator-chefe passou a ser Júlio Monteiro, que iniciou a apresentação comemorando o 13º ano da Revista, defendendo a continuação dos propósitos da publicação:

"reproduzir com máxima fidelidade todos os atos das sessões ordinárias e extraordinárias da Sociedade; publicará todos os trabalhos originais dos sócios e dará parecer sobre todos os trabalhos estranhos à Sociedade que lhe forem remetidos; manterá uma seção onde os leitores devem encontrar noticias sobre o estado sanitário desta Capital, informando resumidamente qual o movimento dos nossos Hospitais de Isolamento, e, finalmente um capítulo onde dará breves noticias sobre tudo que se publicar e que ocorrer entre nós ou no estrangeiro, relativamente às ciências médico-cirúrgicas".

 

 





Com base na documentação da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, a publicação de maior duração foi Annaes da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Publicada inicialmente em 1915, trazia o conteúdo das atas das sessões, além dos trabalhos originais, relatórios e discursos dos médicos integrantes da associação, e permaneceu como publicação anual até 1930. A partir daí, teve sua denominação mudada para Annaes Brasileiros de Medicina e Cirurgia, apresentando novo formato; passou a ser mensal, porém editada apenas uma vez por ano num volume que integrava todos os fascículos. O conteúdo era dividido em trabalhos de temas médicos, atas das sessões, atos dos diretores eleitos e os termos de posse dos mesmos. O primeiro número foi publicado em julho de 1930 e seu diretor era Antônio Austregesilo Rodrigues Lima, que desejava uma divulgação mais ampla e mais rápida. No entanto, havia problemas materiais e a publicação voltou a ser anual.

Em 1932, novas alterações ocorreram. Atualizou-se a ortografia para Anais Brasileiros de Medicina e Cirurgia; a direção ficou sob a responsabilidade de Leonel Gonzaga, defensor de uma publicação "renovada no aspecto e nas intenções"; Waldemar Paixão assumiu a redação; e a periodicidade passou a ser trimestral.

A publicação dos Anais do Primeiro Congresso de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro foi efetuada pela Imprensa Nacional, em 1889, depois de um impasse entre a Sociedade e o Governo Imperial, pois a entidade solicitou ao governo o custeio daquela publicação, usando como argumento os recursos disponíveis, mas não utilizados desde setembro de 1888, para outra publicação da área que era a Revista dos Cursos Práticos e Theóricos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Assim, o Imperador resolveu assumir as despesas pessoalmente e retirou o problema do âmbito do Estado.

Atualmente, a Sociedade busca reativar seu jornal Edição Médica, cujo último exemplar, número 114, foi publicado no bimestre de julho e agosto de 2000.

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FONTES

- ANNAES DO SEXTO CONGRESSO BRASILEIRO DE MEDICINA E CIRURGIA reunido em São Paulo de 5 a 15 de setembro de 1907, 2° vol. São Paulo: Typographia do Estado de São Paulo, 1908. (BCOC)
- BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionario Bibliographico Brazileiro. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1883. (BCOC)
- DIRETORIA da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Archivos Brasileiros de Medicina, Rio de Janeiro, ano I, p.600, 1911. (BMANG)
- DIRETORIA da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Archivos Brasileiros de Medicina, Rio de Janeiro, 2º sem., ano III, p.1056, 1913. (BMANG)
- DIRETORIA da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Archivos Brasileiros de Medicina, Rio de Janeiro, ano VI, p.87, 1916. (BMANG)
- Archivos Brasileiros de Medicina, Rio de Janeiro, ano X, 1918.
- DIRETORIA da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Archivos Brasileiros de Medicina, Rio de Janeiro, ano IX, p.121, 1919. (BMANG)
- DIRETORIA da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Archivos Brasileiros de Medicina, Rio de Janeiro, ano X, p.35, 1920. (BMANG)
- DIRETORIA da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Archivos Brasileiros de Medicina, Rio de Janeiro, ano XI, p.190, 1921. (BMANG)
- DIRETORIA da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Archivos Brasileiros de Medicina, Rio de Janeiro, ano XIII, p. 146, 1923. (BMANG)
- DIRETORIA da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Archivos Brasileiros de Medicina, Rio de Janeiro, ano XIV, p.175, 1924. (BMANG)
- DIRETORIA da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Archivos Brasileiros de Medicina, Rio de Janeiro, ano XVII, p.1104-1105, 1927. (BMANG)
- DIRETORIA da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Archivos Brasileiros de Medicina, Rio de Janeiro, ano XIX, p.57-58, 1929. (BMANG)
- DIRETORIA da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Archivos Brasileiros de Medicina, Rio de Janeiro, ano XX, p.312, 1930. (BMANG)
- FERREIRA, Luiz Otávio; MAIO, Marcos Chor; AZEVEDO, Nara. A Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro: a gênese de uma rede institucional alternativa. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.IV, n.3,p.475-491, nov. 1997/ fev.1998. (BCOC)
- LIMA, Agostinho José de Souza, SOUZA, José Eduardo Teixeira de. "As ciências médico-farmacêuticas" In: Livro do centenário (1500-1900). Rio de Janeiro, 1901. (IHGB)
- QUEIROZ, Júlio Sanderson de. Memória da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro num Século de Vida. Rio de Janeiro: RIOARTE/ MEC, 1986. 2v. (BCOC)
- RIBEIRO, Lourival. Congressos Médicos no 2° Reinado. In: CONGRESSO DE HISTÓRIA DO 2º REINADO, nov., 1975, Rio de Janeiro. Anais do Congresso de História do 2° Reinado. Comissão de História Científica, 2° vol., Brasília/ Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico, 1984, p. 307-315.

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FICHA TÉCNICA

Pesquisa – Alex Varela; Leandro de Aquino Soares; Andréa Lemos Xavier; Verônica Pimenta Velloso
Redação - Andréa Lemos Xavier; Verônica Pimenta Velloso
Revisão - Francisco José Chagas Madureira
Consultoria - Luiz Otávio Ferreira.

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