Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1930)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)

 

 

LABORATÓRIO QUÍMICO DO MUSEU IMPERIAL E NACIONAL

Denominações: Laboratório Químico do Museu Imperial e Nacional (1824)

 

 

HISTÓRICO
FONTES
FICHA TÉCNICA

 

 

 

 

 

 

HISTÓRICO

Com a vinda da Corte portuguesa para o Brasil (1808) e o movimento intenso de naturalistas que aqui chegaram, houve por todo o país, mais acentuadamente na cidade do Rio de Janeiro, uma valorização dos estudos de história natural enfatizando o seu caráter prático. Neste ambiente, foi criado, em 6 de junho de 1818, o Museu Real, a primeira instituição brasileira dedicada exclusivamente ao estudo das ciências naturais. O Museu, instalado inicialmente no Campo de Santana, teve como seu primeiro diretor o franciscano Frei José Batista da Costa Azevedo (1818-1822), que havia freqüentado o curso de Ciências Naturais na Universidade de Coimbra, destacando-se em mineralogia. Entretanto, foi na gestão de seu sucessor, João da Silveira Caldeira (1823-1827), que foi instalado no andar de baixo do então denominado Museu Imperial e Nacional, em 1824, o Laboratório Químico. Segue-se o texto da Decisão nº206, de 15/12/1824, que criou o Laboratório:

"Manda S.M. o imperador, pela secretaria de estado dos negócios do império, participar ao diretor do Museu Nacional que lhe foi presente o seu ofício de 9 de novembro próximo passado, no qual mostra as vantagens práticas que possam resultar à Nação de estabelecimento de um laboratório químico nesta corte, e o local mais próprio para o seu assentamento, ajuntando uma lista de aparelhos e instrumentos necessários para o fim proposto; e o mesmo Augusto Senhor havendo dado nesta data as suas imperiais ordens para se mandar pela repartição dos negócios estrangeiros, proceder à compra dos mencionados instrumentos, tem resolvido que o edifício do laboratório se faça no mesmo terreno do museu, por baixo dos novos salões que se estão fazendo, como já foi proposto pelo mencionado diretor. Palácio do Rio de Janeiro, em 15 de dezembro de 1824. – Estevão Ribeiro de Resende" (Apud AZEVEDO, 1994, p. 26).

 

 

 

 



João da Silveira Caldeira foi o grande responsável pela idealização e instalação do Laboratório, e seu primeiro diretor (27/10/1823-1827). Doutor em medicina pela Universidade de Edimburgo e hábil químico, já aos 19 anos fez estágio em Paris com renomados químicos como Louis Nicolas Vauquelin (1763-1829) e André Laugier (1770-1832), e também com o mineralogista René Just Haüy (1743-1822). Silveira Caldeira publicou, em 1825, a "Nova Nomenclatura Química Portuguesa", um dos primeiros compêndios de assuntos químicos escrito no Brasil.

O Laboratório Químico do Museu Imperial e Nacional foi, na opinião de Alfredo Andrade (1949), o primeiro laboratório químico para análises a ser fundado no país, pois o Laboratório Químico-Prático, criado em 1812, destinava-se fundamentalmente a exames de produtos farmacêuticos.

Depois de devidamente aparelhado, passaram a ser realizadas no Laboratório Químico as primeiras análises de combustíveis nacionais e de amostras de pau-brasil. Em 1828, assumiu a gestão do Museu Imperial e Nacional e do Laboratório Químico, o frei carmelita Custódio Alves Serrão (1828-1847), formado na Universidade de Coimbra , lente de zoologia e botânica da Academia Real Militar, e autor da "Lições de Química e Mineralogia". Neste período houve um crescimento do número e da variedade das análises realizadas pelo Laboratório. Em 1847, Alves Serrão foi substituído por Frederico Leopoldo Cezar Burlamaque (1847-1866), formado em matemática pela Academia Real Militar e secretário perpétuo da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, que logo tratou de melhorar e enriquecer os recursos da entidade com a ajuda de Guilherme Schüch de Capanema, (Barão de Capanema), que se tornou diretor-adjunto em 1849. Em função desta renovação dos recursos, foram efetuadas no Laboratório análises dos combustíveis naturais de diversas áreas, entre elas Tubarão, Herval, Fernando de Noronha e Lago Sacoré (sul da Bahia).

Em 1840, por ordem do Imperador, foram solicitados a Agostinho Rodrigues da Cunha os meios para preparar, no Laboratório Químico do Museu, as experiências para as exposições de química industrial, colaborando assim com a instrução científica popular (ANDRADE, 1949).

Neste Laboratório Químico foram realizadas as primeiras perícias toxicológicas do país, isto porque o Laboratório era franqueado a toda e qualquer requisição por parte do Chefe de Polícia da Corte. Não só a Comissão Médica Policial da Corte, mas também o Chefe de Polícia de Niterói, fizeram uso dos recursos da instituição em 1856, para a perícia toxicológica de alguns órgãos, da qual participaram como peritos os médicos José Francisco de Sousa Lemos e Antônio José Pereira das Neves. Em outra ocasião, em 1861, chegaram ao Laboratório as vísceras do Cônego Antônio José Barbosa França, cuja morte gerou grande inquérito policial. Além de prestar a esses serviços, os aparelhos do Laboratório eram freqüentemente solicitados pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e pela Academia Real Militar para o ensino da química e da física.

Após período de relativo abandono na gestão de Francisco Freire Allemão Cisneiros (1866-1874) no Museu Imperial e Nacional, o Laboratório teve novo e forte impulso com Ladislau de Souza Mello Netto (1874-1893), que convidou Theodor Peckolt para reorganizá-lo. A mudança consistiu na análise e reclassificação de todos os minerais de classificação duvidosa e também de qualquer substância desconhecida das outras seções do estabelecimento. A partir desse trabalho, Peckolt realizou inúmeras pesquisas fitoquímicas a respeito de nossa flora e publicou duas obras: "História das plantas alimentares e de gozo no Brasil" e "História das plantas medicinais e úteis do Brasil", pelas quais recebeu de D. Pedro II o oficialato da Ordem da Rosa.

Somente em 1874, Ladislau de Souza Mello Netto, diretor interino do Museu Imperial e Nacional na época, entrou em contato com a Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas para requisitar recursos para a reativação do Laboratório Químico do Museu. Em resposta, o diretor Ladislau recebeu deste órgão um comunicado cobrando o cumprimento da determinação do regulamento de 1842, que estabelecia a criação de cursos de ciências relativas às seções do Museu.

O Museu Nacional sofreu nova remodelação em 1910, na administração de João Baptista de Lacerda (1895-1915), e "de esquecido no Ministério da Justiça, apesar de seus trabalhos e da importância de suas coleções, passou à evidência no Ministério da Agricultura, recém-criado, a que prestou enorme subsídio no organizar as suas múltiplas repartições técnicas" (ANDRADE, 1922, p.8). A partir do decreto no 7.862, de 09/02/1910, a sede do Museu, então situada no antigo Palácio Imperial da Quinta da Boa Vista, passou por grandes reformas de ampliação de suas instalações. O gabinete de Química teve sua capacidade duplicada, tendo sido criados dois novos laboratórios dessa matéria pelo decreto no 9.211, de 15/12/1911, o "Laboratório de Química Analítica" e o "Laboratório de Química Vegetal". Em 1916, quando Alfredo Antônio de Andrade foi nomeado chefe dos laboratórios de química, na gestão de Bruno Alvares da Silva Lobo (1915-1923), os dois laboratórios se fundiram no "Laboratório de Química", em função da Lei Orçamentária de 1916, pelo decreto nº 11.896, de janeiro daquele ano.

Finalmente, em março de 1931, o Laboratório de Química deixou de ser uma seção autônoma da instituição que o abrigava, em decorrência da reforma realizada na gestão de Edgard Roquette-Pinto.

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FONTES

- ANDRADE, Alfredo de. História do Laboratório Químico do Museu. Revista da Sociedade Brasileira de Química, Rio de Janeiro, v.XVIII, ns.1-4, jan./dez. 1949. (BN)
- ANDRADE, Alfredo Antonio de. O Museu Nacional e a Difusão da Chimica. Rio de Janeiro: Typologia do Museu Nacional, 1922. (MN)
- AZEVEDO, Fernando de (org). As Ciências no Brasil. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994. v.2. (BCOC)
- CARRARA, Ernesto; MEIRELLES, Hélio. A indústria química e o desenvolvimento do Brasil (1500-1889). São Paulo: Metalivros, 1996. (IHGB)
- LACERDA, João Batista de. Fastos do Museu Nacional do Rio de Janeiro: recordações históricas e científicas fundadas em documentos authenticos e informações veridicas. Rio de Janeiro: [s. n.], 1905. (MN)
- NETTO, Ladislau. Investigações Históricas e Científicas sobre o Museu Imperial e Nacional do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Instituto Philomatico, 1870.
- SANTOS, Manoel Heleno Rodrigues dos. Aspectos históricos do ensino superior em Pernambuco e sua Escola de Química. Recife: [s. n.],1982. (BN)

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FICHA TÉCNICA

Pesquisa - Gil Baião Neto, MªRachel Fróes da Fonseca
Redação - Gil Baião Neto, MªRachel Fróes da Fonseca
Revisão - Francisco José Chagas Madureira.

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