Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1930)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)

 

 

FACULDADE DE MEDICINA E CIRURGIA DE SÃO PAULO

Denominações: Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo (1912); Faculdade de Medicina de São Paulo (1925); Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (1934)

 

 

HISTÓRICO
ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO
PUBLICAÇÕES OFICIAIS
FONTES
FICHA TÉCNICA

 

 

 

 

 

 

HISTÓRICO

Com a expulsão dos jesuítas das colônias portuguesas pelo Marquês de Pombal, em 1759, o exercício da medicina passou a ser atribuição de físicos, cirurgiões, barbeiros e boticários. Exceto os físicos, que eram formados pelas universidades européias, geralmente ibéricas, os cirurgiões e boticários, mais numerosos, aprendiam seu ofício na prática, tendo como mestre um cirurgião já habilitado. Para garantirem o direito de exercer apenas a cirurgia prestavam exames diante das autoridades sanitárias competentes, quando obtinham a "carta de examinação". A partir do século XVIII, o aprendizado para obter licença na colônia se dava geralmente nos hospitais da Santa Casa da Misericórdia, em hospitais militares ou ainda nas residências dos mestres das principais cidades e vilas. Na cidade de São Paulo, desde 1804, se teve notícia de que no Hospital Militar eram ministradas aulas de cirurgia pelo físico-mor Mariano José do Amaral. (LOBO, 1964)

Entretanto, a primeira tentativa oficial de fundação de uma escola médica em São Paulo remonta aos primeiros anos da República. A iniciativa partiu do governo estadual de Américo Brasiliense de Almeida Mello, que sancionou a lei nº 19 de 24/11/1891, referendada pelo Secretário do Interior, Augusto de Freitas Villalva, que criava " uma academia de medicina, cirurgia e farmácia nesta capital, fazendo parte do plano geral de organização do ensino superior do Estado" (Apud TEIXEIRA, 2001, p.90). Segundo Gabriela S.M.C. Marinho (2001) este decreto, que se inseria no plano de organização do ensino superior no Estado de São Paulo, fracassou como ocorrera com as tentativas anteriores para estabelecer escolas médicas. A autora indica a deposição de Américo Brasiliense de Almeida Mello, em decorrência da queda do Marechal Deodoro da Fonseca (novembro de 1891), entre os fatores para a não implantação da escola.

Naquela época, as únicas instituições de ensino médico no país reconhecidas pelo governo republicano eram a Faculdade de Medicina e Farmácia do Rio de Janeiro e a Faculdade de Medicina e Farmácia da Bahia, implantadas em 1808. No final do século XIX, o Estado de São Paulo, principalmente sua capital, destacava-se no cenário nacional por apresentar um crescimento populacional significativo, motivado pelo desenvolvimento da produção cafeeira, a imigração e a facilidade dos transportes através da extensão da rede ferroviária, o que facilitava a propagação de doenças transmissíveis. A inexistência de uma estrutura sanitária competente para tratar das epidemias que se disseminavam, interferindo, inclusive, no crescimento econômico das zonas urbana e rural, incentivou a organização do Serviço Sanitário do Estado, levando à criação, no ano de 1892, do Laboratório de Bacteriologia do Estado de São Paulo e do Instituto Vacinogênico entre outras instituições. Faltavam, contudo, naquela época, instituições de ensino médico no estado paulista.

Com a criação da primeira associação de médicos no Estado, em 1895, denominada Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, novamente foi ventilada a idéia de implantação de um curso médico vinculada à intenção de fundação de uma universidade, quando foi nomeada uma comissão para a elaboração de um projeto para implantação de uma faculdade. Esta comissão, nomeada pelo Secretário do Interior, Alfredo Pujol, era constituída por vários membros da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, como Luiz Pereira Barreto, Carlos José de Arruda Botelho, Francisco Franco da Rocha, e Ignácio Marcondes de Rezende. No seio desta comissão surgiram dois projetos diferentes, em decorrência de divergências quanto à duração e à estrutura do curso (TEIXEIRA, 2001). Ambas as propostas foram encaminhadas para apreciação no Congresso Estadual, mas não chegaram a ser votadas e a idéia de uma faculdade de medicina não se viabilizou.

Em 1898 foi fundada a Escola Livre de Farmácia de São Paulo, que, em 1901, passou a ministrar também os cursos de odontologia e obstetrícia.

Em 1900 o médico Queiroz Mattoso, membro da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, apresentou outra proposta de criação de uma faculdade de medicina, a qual foi bem aceita no meio médico e desencadeou a organização de uma nova comissão para a elaboração do projeto. Com a participação de Augusto Cesar de Miranda Azevedo, Mathias de Vilhena Valladão, Luiz Pereira Barreto, Emílio Marcondes Ribas, e João Alves de Lima, entre outros dos quadros da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. O modelo proposto, baseado no da Escola Livre de Farmácia de São Paulo, criada em 1898, não foi bem recebido no legislativo estadual e novamente não concretizou-se a idéia de criação de uma faculdade de medicina.

O projeto da faculdade de medicina em São Paulo foi retomado por ocasião da Lei Orgânica do Ensino Superior e Fundamental da República, referendada pelo Ministro da Justiça e Negócios Interiores Rivadávia Corrêa, através do decreto nº 8.659 de 05/04/1911. Por esta reforma ficou definida a autonomia didática e administrativa das faculdades, segundo a qual os programas de ensino de outras escolas ou faculdades não tinham mais a obrigatoriedade de seguir os das faculdades de medicina do Rio de Janeiro e da Bahia, desoficializando o ensino. Baseado nos pressupostos desta nova legislação de ensino, um grupo de intelectuais paulistas, incluindo médicos, farmacêuticos, dentistas e advogados, instalaram em novembro de 1911, a Universidade Livre de São Paulo, que era mantida pelo setor privado sem a fiscalização do governo. Fundada por Eduardo Augusto Ribeiro Guimarães, tinha os cursos de medicina, de belas artes, comércio, engenharia, odontologia, farmácia e direito. Entre os presentes em seu corpo docente estavam Ulysses de Freitas Paranhos (curso de microbiologia) e Antonio Carini (anatomia e histologia patológica). Funcionando aproximadamente até 1917, essa Universidade chegou a formar alguns médicos e farmacêuticos (CUNHA, 1980). A fundação da Universidade Livre de São Paulo desencadeou o debate sobre a criação de uma faculdade de medicina oficial do Estado, apresentando-se aqueles que eram defensores das escolas livres e os que as entendiam como fábricas de diplomas. Em 1912, quando o Governo do Estado de São Paulo desencadeou o processo de criação da faculdade de medicina, o debate assumiu maiores proporções, ultrapassando os limites dos periódicos especializados e alcançando as páginas dos jornais de grande circulação.

Neste contexto a lei nº 1.357, de 19/12/1912, aprovada pelo Presidente do Estado, Francisco de Paula Rodrigues Alves, e referendada pelo Secretário do Interior, Altino Arantes, estabeleceu que aquela Academia de Medicina, Cirurgia e Farmácia, criada em 1891 mas não regulamentada, passava a ser a Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. O médico Arnaldo Augusto Vieira de Carvalho, que havia sido diretor do Instituto Vacinogênico (1892) e diretor clínico da Santa Casa da Misericórdia de São Paulo (1894), e que desde 1891 vinha se empenhando na criação de uma faculdade de medicina, ficou encarregado de organizar a instituição. Pelo decreto de 7 de janeiro de 1913, Arnaldo Augusto Vieira de Carvalho foi nomeado seu diretor.

A lei de criação da Faculdade foi regulamentada pelo decreto nº 2.344 de 31/01/1913, quando foi determinado que o programa do curso, a ser realizado em seis anos, ficava composto por 28 cadeiras, sendo três no curso preliminar e 25 no curso geral.

As primeiras nomeações de professores ocorreram em fevereiro de 1913, sendo eles: Edmundo Xavier (física médica); Celestino Bourroul, substituto da 1ª seção (física médica e história natural médica); Raphael Penteado de Barros (preparador de física); e Léo Lopes de Oliveira (preparador de história natural). Neste mesmo ano, ainda foram nomeados os doutores João de Aguiar Pupo (preparador de química médica) e Guilherme Bastos Milward (química médica).

A aula inaugural, versando sobre física, foi proferida pelo professor Edmundo Xavier na Escola Politécnica de São Paulo, no dia 2 de abril de 1913. Nos anos seguintes foram contratados professores estrangeiros para lecionarem diversas cadeiras: Alphonso Bovero (anatomia descritiva e histologia – 1914-1937) e Alessandro Donati (patologia geral e experimental – 1917-1923), da Universidade de Turim, na Itália; Emile Brumpt (parasitologia – 1913-1915), da Faculdade de Medicina de Paris; Lambert Mayer (fisiologia – 1913-1914), da Faculdade de Nancy, na França; Antônio Carini, da Suíça (microbiologia – 1916-1920); e Walter Haberfeld, da Alemanha (anatomia e histologia patológicas – 1916-1920).

A estrutura curricular da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo "buscava dosar aulas teóricas e práticas de laboratório, abrindo assim a possibilidade de os estudantes receberem uma formação de cunho mais científico e não meramente clínico" (MARINHO, 2001, p.53).

A Faculdade foi instalada, provisoriamente, nas dependências da Escola Politécnica de São Paulo e da Escola de Comércio Álvares Penteado, evitando-se a sua vinculação com a Santa Casa da Misericórdia de São Paulo. No dia 23 de março de 1914 sua sede foi transferida para um prédio alugado, situado na rua Brigadeiro Tobias, 42. Nos fundos deste prédio foi construído um anfiteatro, onde funcionaram as cadeiras de física, química, história natural, anatomia, fisiologia, farmacologia, histologia, anatomia médico-cirúrgica, operações e aparelhos, e terapêutica experimental e arte de formular. Além deste prédio, foi alugado outro na esquina da mesma rua com a ladeira de Santa Efigênia, casa nº 1, antiga residência da Marquesa de Santos (Maria Domitília de Castro Canto de Mello). Neste local, funcionaram as cadeiras de histologia, anatomia patológica, microbiologia e patologia geral.

No ano de 1916, pela lei nº 1.504, foi autorizada a construção de um edifício para a Faculdade, porém não foi executada. Na mesma rua Brigadeiro Tobias, onde funcionava a Faculdade, foi arrendado um terceiro prédio, destinado à cadeira de higiene.

Neste mesmo ano foram nomeados para o corpo docente da Faculdade: Sérgio Florentino de Paiva Meira Filho (catedrático de anatomia médico-cirúrgica, operações e aparelhos), Domingos Rubião Alves Meira (catedrático de clínica médica 1ª cadeira, propedêutica), Antônio Cândido de Camargo (catedrático de clínica cirúrgica 1ª cadeira, propedêutica), João Paulo da Cruz Britto (catedrático de cliníca oftalmológica), Adolpho Carlos Lindenberg (catedrático de clínica dermatológica e sifiligráfica), Henrique Lindenberg (catedrático de clínica otorrinolaringológica), Benedicto Augusto de Freitas Montenegro (substituto da 3ª seção), João Maria Ayrosa Galvão (substituto da 4ª seção, histologia, microbiologia, anatomia e histologia patológicas), Antônio de Almeida Prado (substituto da 8ª seção, clínica médica, 1ª, 2ª e 3ª cadeiras), Affonso Regulo de Oliveira Fausto (substituto da 7ª seção, clínica cirúrgica, 1ª e 2ª cadeiras), Álvaro de Lemos Torres (assistente de clínica médica 1ª cadeira), Zephirino Alves do Amaral (assistente de clínica cirúrgica, 1ª cadeira), José Pereira Gomes (assistente de clínica oftalmológica), José Ataliba Ferraz de Sampaio (assistente de clínica dermatológica e sifiligráfica), Adolfo Schmidt Sarmento (assistente de clínica otorrinolaringológica), Joaquim Pires Fleury (preparador de microbiologia), Adolpho Corrêa Dias Filho (prepardor de anatomia médico-cirúrgica, operações e aparelhos), Ludgero da Cunha Motta (preparador de anatomia e histologia patológicas), Luciano Gualberto (preparador de anatomia descritiva 2ª parte), João Moreira da Rocha (preparador de anatomia descritiva 1ª parte), e Diaulas de Sousa e Silva (preparador de histologia).

Em 25 de janeiro de 1920 foi lançada a pedra fundamental da sede própria da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, em frente ao Cemitério do Araçá. Dentre os prédios planejados, o único concretizado foi o do Pavilhão de Medicina Legal, finalizado em dezembro de 1921.

No dia 28 de fevereiro de 1919 foi realizada a solenidade de formatura da primeira turma de médicos diplomados pela Faculdade, constituída por 27 profissionais, entre os quais duas mulheres: Benedicto Oscar de Carvalho Franco, Benjamin Reis, Sebastião Comparato, José dos Passos da Silva e Cunha, Délia Ferraz, Flamínio Fávero, Horacio Figueiredo, Floriano Smith Bayma, José Ferreira dos Santos, João Procópio, Simeão dos Santos Bonfim, Ernesto de Souza Campos, Odete Nora de Azevedo Antunes, Altino Augusto Azevedo Antunes, Sebastião Ozorio de Azevedo Antunes, João Baptista Brasiliano, Messias da Fonseca, Antonio Leopoldino Passos Junior, Sebastião de Camargo Calazans, José de Toledo Piza, José de Toledo Mello, Gumercindo de Godoy, Henrique Dante de Castro, Octavio Pinto Ferraz, Austin Ribeiro Villela, Eugenio Nogueira Ferraz, e Alfredo Pujol Filho.

Neste período, entre 1916 e 1931, a atuação da Fundação Rockefeller destacou-se no apoio e colaboração prestados à Faculdade de Medicina. A primeira comissão de estudos da Fundação Rockefeller, composta pelo bacteriologista William Henry Welch e por Wickliffe Ross (Presidente da International Health Board- IHB), chegou ao Brasil em 1915, com o objetivo de identificar os centros médicos de excelência. Em 1916 duas novas comissões retornaram à América do Sul, sendo o Brasil visitado na segunda empreitada, que tinha como objetivo identificar os centros de ensino médico adequados para a implantação de disciplinas de higiene e saúde destinadas à formação de quadros para atuar na prevenção e em campanhas de saúde pública. Foram realizados os primeiros contatos com a recém-criada Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, sendo recomendado pela comissão a criação de uma cadeira de higiene nesta instituição, a qual foi implementada em 1918. Além disso, em 1928, financiou uma Comissão formada pelos professores Benedicto Augusto de Freitas Montenegro, Luiz Manoel de Rezende Puech e Ernesto de Souza Campos, visando a organização do projeto de construção e equipamento das cátedras da Faculdade. Incumbidos dessa missão, seguiram os professores rumo aos Estados Unidos, Canadá e vários países da Europa para coleta de dados em visita a diversas instituições médicas. Após as viagens, tendo recebido mais recursos da Fundação Rockefeller, a Faculdade executou o projeto elaborado pela Comissão, com o auxílio do arquiteto João Serato. A construção do prédio ficou a cargo da empresa F. P. Ramos de Azevedo & Cia., sendo dirigida pelos professores Ernesto de Souza Campos e Luiz Manoel de Rezende Puech. Em 15 de março de 1931, foi inaugurado o Edifício Central, na então Estrada do Araçá, depois Avenida Municipal, que a partir de 1931 foi denominada Avenida Dr. Arnaldo. Nesse prédio funcionavam a administração e os laboratórios. Mais tarde, no dia 20 de abril de 1944, ficava pronto o Hospital das Clínicas e, em 1950, o pavilhão especial de ortopedia.

Segundo o professor Jairo Ramos (Apud LACAZ, 1999), a Faculdade de Medicina de São Paulo acabou por adotar os padrões norte-americanos de ensino médico, abandonando o modelo de ensino francês, considerado retrógado.


Diretores:

Arnaldo Augusto Vieira de Carvalho (1913-1920); Ovídio Pires de Campos (1920-1921); Edmundo Xavier (1921-1922); Celestino Bourroul (1922); Adolpho Carlos Lindenberg (1922-1924); Pedro Dias da Silva (1924-1930); Ernesto de Souza Campos (1930); Sérgio Florentino de Paiva Meira Filho (1930-1932); Cantídio de Moura Campos (1932-1935); João de Aguiar Pupo (1935-1937); Flamínio Fávero (1937-1938); Ludgero da Cunha Motta (1938-1941); Benedicto Augusto de Freitas Montenegro (1941-1947); Renato Locchi (1947-1950).

Início

 

 

ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO

Com a necessidade de começar o ensino clínico, foi estabelecido um acordo, em 1915, entre o Governo do Estado e a Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia de São Paulo. No seu Hospital Central foram instaladas todas as clínicas, com exceção da obstétrica e da psiquiátrica, a primeira alojada na Maternidade de São Paulo, e a segunda no Juqueri e no Recolhimento das Perdizes. As aulas práticas de clínica e cirurgia foram ministradas na Santa Casa até 1948, mesmo depois da inauguração do Hospital das Clínicas da Faculdade, em 1944.

O acordo que se estabeleceu entre o Governo do Estado e a International Health Board (IHB – Junta Internacional de Saúde), da Fundação Rockefeller, para a organização de um Departamento de Higiene destinado ao ensino dessa disciplina, foi oficializado no dia 9 de fevereiro de 1918, o qual definiu o valor das contribuições da Fundação para equipar os laboratórios e para manutenção do departamento, a concessão de duas bolsas de estudos nos Estados Unidos para estudantes brasileiros e envio de um especialista norte-americano para assumir o departamento de higiene. Os cientistas norte-americanos Samuel Taylor Darling e Wilson George Smillie foram designados para dirigir o departamento nos períodos 1918-1920 e 1920-1922, respectivamente. Mais tarde, foram substituídos pelos brasileiros Geraldo Horácio de Paula Souza e Francisco Borges Vieira. Posteriormente, esse departamento, como Instituto de Higiene, desvinculou-se da Faculdade de Medicina e Cirurgia, constituindo o Instituto de Higiene de São Paulo, dando origem, em 1945, à Faculdade de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

Richard Mills Pearce, representante da Fundação Rockefeller, foi encarregado da promoção de estudos e negociações referentes ao ensino médico, destacando-se na implantação do modelo de ensino proposto pela instituição norte-americana na Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. Esse modelo baseava-se na limitação de número de vagas, tempo integral nas disciplinas pré-clínicas, hospital de clínicas anexo à faculdade (MARINHO, 2001). Em suas diversas vindas a São Paulo, Pearce estabeleceu contactos com Arnaldo Augusto Vieira de Carvalho, e foi intermediado por um ex-aluno seu, Alexandrino de Moraes Pedroso, então do Instituto Bacteriológico do Estado de São Paulo.

Em 18 de abril de 1918, Oscar de Carvalho Freire, catedrático de medicina legal da Faculdade de Medicina da Bahia, inaugurou a cadeira de mesmo nome no antigo Laboratório de Higiene da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, na rua Brigadeiro Tobias. Em 1932, com a sua morte, foi substituído pelo professor Flamínio Fávero. As atividades do então Instituto Oscar Freire compreendiam incentivo ao ensino teórico e prático da cadeira de medicina legal; entrosamento do aludido ensino com o de outras faculdades; incentivo às pesquisas e trabalhos de medicina legal e aos cursos de extensão universitária; exercício de perícia, sob licitação da justiça e da polícia; serviço de identificação e biotipologia da Universidade; e edição, com recursos próprios, do Boletim do Instituto Oscar Freire.

Em 1920, foi feito um novo acordo com a Fundação Rockefeller para o ensino da patologia. No ano seguinte, a entidade concordou em colaborar, desde que aceitas certas sugestões, tais como limitação do número de matrículas; adoção do tempo integral para as cadeiras básicas; e construção, nas proximidades da Faculdade, de um hospital para o ensino das clínicas. Para ocupar a cadeira de anatomia patológica foram enviados então os especialistas estrangeiros Oscar Klotz (1921-1923) e Robert Archibald Lambert (1923-1925).

Tomando conhecimento das sugestões da Fundação Rockefeller, o diretor da Faculdade conseguiu o apoio do governador paulista Carlos de Campos e do Congresso Estadual. A Assembléia Legislativa votou a lei nº 2.016 de 26 de dezembro de 1924, instituindo o regime de tempo integral e autorizando a reforma do regulamento da Faculdade, no qual, entre outras disposições, aparecia a limitação do número de alunos.

Neste período, a lei nº 4.615 de 07/12/1922, assinada pelo Presidente da República, Arthur Bernardes, reconhecia em todo o país os títulos emitidos pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. A partir de então, a Escola teve de se submeter à vigilância e fiscalização do Conselho Superior de Ensino. Pelo decreto estadual n° 3.874 de 11/07/1925, foi organizado o primeiro regimento interno da instituição aprovado pela Congregação na sessão de 21 de outubro de 1925, tendo sido referendado em 17 de abril de 1926, por ato do Secretário do Interior. A partir daí, sua denominação mudou para Faculdade de Medicina de São Paulo (art. 1°). O ensino médico ministrado foi reorganizado, ficando as cadeiras assim distribuídas pelos seis anos de duração do curso (art. 2°):

1° ano: física; química geral e mineral; biologia geral e parasitologia; anatomia (1ª parte);

2° ano: anatomia (2ª parte); química orgânica e biológica; histologia e embriologia; fisiologia (1ª parte);

3° ano: fisiologia (2ª parte); microbiologia; farmacologia; patologia geral;

4° ano: anatomia patológica; anatomia médico-cirúrgica e medicina operatória; patologia cirúrgica; patologia médica; clínica cirúrgica (1ª cadeira); clínica médica (1ª cadeira); propedêutica;

5° ano: terapêutica e arte de formular; higiene; clínica cirúrgica (2ª cadeira); clínica médica (2ª cadeira); clínica otorrinolaringológica; clínica oftalmológica; clínica dermatológica e sifilográfica;

6° ano: medicina legal; clínica médica (3ª cadeira); clínica pediátrica, obstetrícia e clínica obstétrica; clínica ginecológica; clínica cirúrgica infantil e ortopédica; clínica psiquiátrica e neuriátrica e medicina tropical.

Todo o corpo docente ficou constituído por médicos, podendo ser professores catedráticos ou contratados, docentes-livres e auxiliares de ensino (art. 5°). O diretor era escolhido entre os professores, sendo nomeado livremente pelo Governo (art. 6°).

Quanto ao hospital para as clínicas da Faculdade, o congresso paulista votou a lei nº 2.124 de 30/12/1925, autorizando a abertura de um crédito especial para o início da construção (1926), devendo este crédito ser renovado nos exercícios de 1927 e 1928. Contudo, o governador Carlos de Campos faleceu, e o sucessor Júlio Prestes suprimiu os créditos destinados à Faculdade. Sendo assim, o hospital para o ensino das clínicas, um dos pontos defendidos pela Fundação Rockefeller na introdução de seu modelo baseado na medicina experimental, só se concretizou em 1944.

No ano de 1926, o ensino ganhou novo impulso com a contratação dos especialistas em helmintologia do Instituto Oswaldo Cruz, Lauro Travassos e seu assistente César Pinto para a cadeira de parasitologia, acompanhada da adoção do regime integral. O estabelecimento do ensino em tempo integral fez com que as cadeiras básicas fossem organizadas em forma de departamentos. Isso permitiu o desenvolvimento da pesquisa científica no interior da Faculdade.

A Fundação Rockefeller destacou-se também no auxílio prestado ao estudo da genética, através do trabalho do professor André Dreyfus, que lecionava, desde 1926, histologia e embriologia na Faculdade e assumiu a chefia do laboratório de biologia geral em 1934. Nesse laboratório, ele trabalhou com o bolsista da Fundação, Crodowaldo Pavan.

Em 21 de fevereiro de 1929, foi aprovado o decreto estadual nº 4.554-A, que regulamentou a Faculdade de Medicina de São Paulo.

No dia 25 de janeiro de 1934, foi aprovado pelo interventor federal do Estado de São Paulo, Armando de Salles Oliveira, o decreto nº 6.283, que criava a Universidade de São Paulo. A Faculdade foi integrada à nova instituição, com a denominação de Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Os professores Raul Carlos Briquet (obstetrícia) e André Dreyfus, da Faculdade de Medicina, participaram da comissão que discutiu e elaborou o decreto de criação da Universidade. Essa foi a primeira a ser instalada no país segundo os moldes de sistema universitário estabelecidos pela nova legislação de ensino, denominada Reforma Francisco Campos (decreto nº 19.851 de 11/04/1931). A originalidade da Universidade de São Paulo encontrava-se na incorporação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras como ponto central do sistema universitário, além de sua atenção especial à pesquisa científica. A Faculdade de Medicina acabou firmando-se como um dos mais importantes centros de formação de recursos humanos e de desenvolvimento de pesquisas na área médica. Em 1951, a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo recebeu o título de padrão "A" pelo Conselho Executivo da Associação Médica Americana, dos Estados Unidos, tornando-se merecedora das mesmas considerações e dos mesmos direitos que as escolas médicas aprovadas naquele país.

Centro Acadêmico Oswaldo Cruz

A atuação do corpo discente da instituição se destacou a partir das atividades do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz, criado no dia 14 de setembro de 1913. Formado pela associação dos alunos, logo foi reconhecido pelo diretor Arnaldo Augusto Vieira de Carvalho, sendo presidido pelo aluno Ernesto de Souza Campos. O Centro Acadêmico atuou nos campos educacional, político e de assistência à saúde.

Inicialmente, seus integrantes promoveram diversas palestras médicas proferidas pelos professores da Faculdade. Durante o ano de 1914, se teve notícia da visita de grupos de estudantes ao Instituto Oswaldo Cruz para prestarem homenagem ao seu fundador, o sanitarista Oswaldo Gonçalves Cruz. Este, em retribuição, visitou no mesmo ano a Faculdade. Em 1918, o Centro Acadêmico fundou a Liga de Combate à Sífilis, participando ativamente da Liga Nacionalista e no combate à gripe espanhola, quando sobressaíram as atuações do diretor Arnaldo Augusto Vieira de Carvalho na Santa Casa e de Ernesto de Souza Campos na presidência do Centro Acadêmico. Com fins de promover a aproximação entre os alunos diplomados pela Faculdade e manter vivo o interesse pela instituição, em 26 de março de 1930 foi fundada a Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Medicina de São Paulo pelos ex-presidentes do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz. No dia 25 de junho, tomou posse a primeira diretoria da Associação. Nesse mesmo ano, em setembro, era criado o Departamento Científico do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz, promovendo a colaboração exclusiva de estudantes no seu periódico Revista de Medicina.

Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, a Faculdade de Medicina também se manifestou, posicionando-se a favor dos "rebeldes" contra o Governo Provisório de Getúlio Vargas. Alguns alunos, inclusive o presidente do Centro Acadêmico, Raul de Almeida Braga, e os médicos João de Lorenzo, Piragibe Nogueira, Eurico Bastos e Reinaldo Neves Figueiredo, se envolveram na organização da Unidade Cirúrgica Itália, chefiada pelo professor Benedicto Augusto de Freitas Montenegro. O Hospital do Sangue do Cruzeiro, chefiado pelo professor Alípio Corrêa Netto, contou com a colaboração de Eduardo Etzel, Francisco Cerruti e vários acadêmicos, destacando-se também na cirurgia de guerra (LACAZ, 2000).

Além da participação nesses acontecimentos, a Faculdade de Medicina depois de incorporada à Universidade de São Paulo, através de seus antigos alunos, contribuiu significativamente na implantação de outras escolas médicas pelo Estado de São Paulo, tais como a Faculdade de Medicina Veterinária, a Escola Paulista de Medicina, a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, a Faculdade de Medicina de Campinas, a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa da Misericórdia, a Faculdade de Medicina de Botucatu, a Faculdade de Medicina de Sorocaba, a Faculdade de Medicina de Santos e a Faculdade de Medicina de Taubaté.

Início

 

 

PUBLICAÇÕES OFICIAIS

Em julho de 1916, foi publicado o primeiro número da Revista de Medicina, órgão do Centro Acadêmico Osvaldo Cruz. Ernesto de Souza Campos era o presidente da Comissão de Redação, que também era formada por Jaime Candelária, Altino Augusto Azevedo Antunes, Flamínio Fávero, Antônio Ferreira de Almeida Júnior, Ibrahim Madeira e J. Cardoso.

Entre os anos de 1926 e 1957, circulou o periódico Annaes da Faculdade de Medicina de São Paulo, publicado anualmente com o fim de divulgar a atividade científica da instituição, como os trabalhos de professores, de docentes e de auxiliares de ensino. Apresentava também uma coletânea de trabalhos originais, notícias, dados históricos, resumos de teses e biografias, procurando estabelecer uma ligação entre a faculdade e outras instituições científicas nacionais e estrangeiras. A comissão de redação no seu início ficou constituída pelos professores Pedro Dias da Silva (presidente), Flamínio Fávero (secretário), Antônio de Almeida Prado, Alphonso Bovero, Raul Carlos Briquet e José Pereira Gomes.

No primeiro número dos Annaes da Faculdade de Medicina de São Paulo, em 1926, foram publicados trabalhos de: Arthur Neiva, César Pinto, Lauro Travassos, Alphonso Bovero, João Moreira da Rocha, Renato Locchi, Moacyr de Freitas Amorim, Franklin de Moura Campos, J. A. Lambert, Juvenal Ricardo Meyer, Bonifácio de Castro Filho, Ludgero da Cunha Motta, João de Aguiar Pupo, Francisco Borges Vieira.

Além desses periódicos, em 1930 era editado o primeiro número de um jornal de estudantes da Faculdade, denominado Bisturi, no qual era divulgada a produção de seus poemas e comentários sobre professores. Tinha como redatores Luiz Baptista, Mário Altenfelder Silva, Mathias Roxo Nobre, Paulo Vilela de Andrade e Gil Spilborgs.

Início

 

 

FONTES

- BRASIL. Lei nº 4.615, de 7 de dezembro de 1922. In: Collecção das Leis da República dos Estados Unidos do Brazil de 1922, v. I. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1923. (BCOC)
- CAMPOS, Ernesto de Souza. História da Universidade de São Paulo. São Paulo: Saraiva, 1954. (BMF)
- _________________________. Instituições culturais e de educação superior no Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1941. (IHGB)
- CUNHA, Luiz Antônio. A Universidade Temporã; o ensino superior da colônia à era de Vargas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/ Edições UFC, 1980. (BCCBB)
- Decreto nº 3.874, de 11 de julho de 1925. Archivos Brasileiros de Medicina, Rio de Janeiro, ano XV, p.417-449, 1925. (BMANG)
- LACAZ, Carlos da Silva. História da Faculdade de Medicina – USP; Reminiscências, Tradição, Memória de Minha Escola. São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte: Editora Atheneu, 1999. (FM-USP)
- LACAZ, Carlos da Silva; MAZZIERI, Berta Ricardo de. A Faculdade de Medicina e a USP. São Paulo: Edusp, 1995. (BCOC)
- LEMOS, Fernando Cerqueira. Contribuição à história do Instituto Bacteriológico, 1892-1940. Revista do Instituto Adolfo Lutz, São Paulo, v.14 (nº especial), p.5-161, 1954. (BCOC)
- LOBO, Francisco Bruno. O ensino da medicina no Rio de Janeiro. v.1. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1964. (ANM)
- MARINHO, Maria Gabriela S.M.C. Norte-americanos no Brasil: uma história da Fundação Rockefeller na Universidade de São Paulo (1934-1952). Campinas, SP: Autores Associados, São Paulo: Universidade de São Francisco, 2001. (BCOC)
- MAZZIERI, Berta Ricardo de (coord.). Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; testemunhos de sua história. São Paulo: Fundo Editorial BYK, 2000. (FSP-USP)
- SALLES, Maria do Rosário Rolfsen. Médicos italianos em São Paulo (1890-1930): um projeto de ascensão social. São Paulo: Editora Sumaré: FAPESP, 1997. (FSP-USP)
- SALLES, Pedro. História da medicina no Brasil. Belo Horizonte: G. Holman, 1971. (IHGB)
- SÃO PAULO. Lei nº 1.357, de 19 de dezembro de 1912. In: Collecção das Leis e Decretos do Estado de São Paulo de 1912, Tomo XXII. São Paulo: Typ. do Diário Official, 1913. (BN)
- TEIXEIRA, Luiz Antonio. A Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo 1895-1913. São Paulo, 2001. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP, 2001. (BCOC)
- VERONESI, Ricardo. Éramos 102...Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo 1946-1996. São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte: Editora Atheneu, 1999. (FM-USP)

Início

 

 

 

FICHA TÉCNICA

Pesquisa - MªRachel Fróes da Fonseca, Alex Varela
Redação - Alex Varela, MªRachel Fróes da Fonseca, Verônica Pimenta Velloso
Revisão - Francisco José Chagas Madureira.

Início